Terça-feira, 5de agosto de 1898.
-Desgraça! – dizendo isso quase num sussurro, levou uma mão ao rosto e esfregou os olhos rapidamente, despertando, assim, de mais um de seus pesadelos onde seus fantasmas interiores o assombravam impiedosa e cruelmente. Ainda suando frio, procurou a carteira de cigarros e o seu isqueiro feito em aço inox, na cabeceira da cama e, num movimento efêmero, tirou um cigarro, o acendeu, logo o tragando.
Levantou-se e foi verificar se as malas estavam bem organizadas, principalmente as das armas e facas. Viu que estavam todas bem arrumadas e que não havia nada fora do lugar. Pegou o telefone que estava no criado mudo do quarto e pediu à camareira preparar um banho para que ele pudesse sair. Já passava das onze da manhã, e ele não queria se atrasar para seu encontro naquela tarde.
Com o banho já preparado, lavou-se e vestiu-se com elegância e extremo bom gosto. Pôs a cartola na cabeça, pegou a sua bengala de caminhada e procurou pelas chaves feitas de bronze com vários detalhes no bolso de sua calça. Destrancou a porta de madeira e saiu deixando o seu quarto para trás, ao chamar o elevador entrando nele.
Saindo do elevador, olhou para todos os lados, sempre com muita atenção. Percebeu que estava sendo observadk por um grupo de mulheres usando vestidos drapejados em várias anáguas e que seus seios eram bem avantajados. Para tirar proveito da situação, disse: “Bom dia, senhoritas!” de forma sedutora, e reparou que elas deram um pequeno arfar e, logo, um sorriso amarelo como resposta. Reparou também no balconista discutindo com um homem sobre uma conta não-paga, e resolveu sair o mais rápido dali, mas sem perder a graciosidade em cada um dos seus passos bem calculados.
Entrou no carro que tinha alugado, e dirigiu com calma até o Café da Mama, um lugar nada convencional, que tinha uma fachada exuberante. Viu que aquele era um lugar que não era freqüentado por qualquer tipo de pessoa. Chegou lá quando ainda iria dar meio-dia, e resolveu pedir algo para comer, apesar de não estar com fome. Sentou-se numa mesa para duas pessoas, pediu uma macarronada e um bom vinho.
- Quer o jornal de hoje, senhor? – perguntou o garçom, educadamente.
- Sim, por favor. – e o homem alto e magro afastou-se para pegar um bolo de jornal, e o entregou para Pedro. O que chamou muito a sua atenção era a manchete que estava sendo anunciada: “ Consumistas versus Liberais. Quem vencerá essa disputa de que até onde sabemos é somente de ideais? Com o presidente deposto por corrupção, o que mais está preocupando os cidadãos franceses é saber quem irá governar o país, e se a elite irá vencer contra os valores socialistas de Marx seguido por uma grande maioria, de trabalhadores franceses...(...)” e parou a leitura naquele momento, sentindo uma onda de entendimento preencher o seu ser. Ele já sabia o que o Sr. Fontaine queria com ele. E deu seu típico sorriso presunçoso.
Aguardou o garçom lhe trazer o seu almoço, e comeu com vontade cada garfada de macarronada e bebeu muito contente o seu vinho. O relógio que estava ao fundo do restaurante deu doze badaladas. Eram duas horas. Não esperou muito e um homem de estatura mediana, com olhos azuis convidativos, e cabelos loiros muito bem penteados para o lado direito, entrou no estabelecimento. Era ele. Só podia ser ele. Pedro nem precisou se levantar, pois o Sr. Fontaine sabia quem ele era. O homem francês aproximou-se da mesa onde Pedro estava sentado e disse graciosamente:
- Boa tarde, Sr. Maragno! – vendo que era mesmo o Sr. Fontaine, levantou-se para apertar a mão dele e disse:
- Boa tarde, Sr. Fontaine. - e então Jean Fontaine e Pedro Maragno sentaram-se na mesa, simultaneamente.
- Bom, então o senhor é o famoso Sr. Fontaine! – disse com sarcasmo.
- Não me chame de senhor, por favor. Pode me chamar de Jean mesmo.
- Eu não misturo trabalho, desculpe. E já tenho uma suposição do que terei que executar, e é algo grande, devido à alta remuneração e também ao trabalho que será difícil. Que socialista terei que matar? – Pedro disse todas as palavras com uma frieza e aspereza que fez Jean estremecer por um instante. Tomou fôlego e tentou fazer sua voz sair a mais relaxada o possível e falou:
- Não me surpreende que você seja tão bem falado! Bem, é isso mesmo. Então não perderei meu tempo explicando coisas que você já sabe. Er.. bom, en..tão, você ficará hospedado na minha casa. Lá moram somente minha esposa, eu e os empregados, e não tenho filhos. A casa é grande e você não será incomodado de forma alguma. Caso minha esposa pergunte, somos amigos de infância e nós nos reencontramos a caminho da França, tudo bem pra você?
- ao terminar seu pequeno discurso, estava afobado, e com medo para saber o que o assassino de aluguel diria a ele. E depois de um minuto inteiro, que para Jean mais parecia uma eternidade, olhou para o rosto de Pedro. Só havia desprezo e ódio neles. Segundos após ter feito isso, Maragno pegou o seu cigarro e começou a tragá-lo, e finalmente disse:
- Eu não estou nem aí pra sua esposa de merda e nem para os seus empregadinhos, seu riquinho otário. Pois bem, eu não me importo de mentir, aliás, é algo que eu sei fazer muito bem. – essas palavras causaram um arrepio em todo o corpo do pobre homem francês. Pedro havia sido brutalmente grosso com ele. Com sua covardia eminente, só conseguiu assentir com a cabeça e ficar agüentando as baforadas do cigarro que Pedro estava fumando.
- Eu esperarei você aqui em baixo e depois seguiremos para a estação, está bem? – com sua covardia, só conseguia balbuciar, mas Pedro tinha entendido, e só virou de costas sem ao menos olhar no rosto de Sr. Fontaine.
Entrou no seu quarto e deu uma última olhada para ver se não lhe faltava nada. Estava tudo pronto para partir. Fechou as contas do seu quarto e saiu do hotel com suas malas, que foram pegas por um dos empregados do Sr. Fontaine.
Dentro do trem todos estavam tendo conversas alegres, Exceto dois homens que estavam sentados um de frente para o outro. Havia um que não parava de fumar um só instante, que era mais alto que o outro que parecia estar abismado com a quantidade que o seu parceiro de viagem fumava. E, para quebrar a tensão que estava ocorrendo entre os dois, Jean resolveu dizer algo da qual se arrependeu imensamente:
- Paris é linda, você verá na hora em que chegarmos – falou com um tanto de relutância, mas conseguiu dizer todas as palavras sem gaguejar, ou algo do tipo.
- Eu não ligo pra nada disso! Eu só estou aqui pelo dinheiro, seu borra-botas, covarde. E não deu pra perceber que eu não quero falar com você?Agora cala essa droga dessa boca e me deixa em paz por que senão você levará um tiro na sua cabeça e outro no meio dos seus genitais – Jean Fontaine não disse mais nada até chegarem em casa. E ficou impressionado pela voz de Pedro ter saído tão doce quanto ameaçadora.
Quinta-feira, 7 de agosto de 1898.
- Esta é a casa – apontou Jean para Pedro.
- E daí? – respirou rapidamente e completou: - Tudo bem, err... quero o nome da sua esposa, da sua mãe, do seu pai, onde estudou e onde morou ou nasceu. Depois, deixe comigo.
- Sim, claro, havia me esquecido disso – ele não havia esquecido, era somente seu medo de morrer sem seus genitais – Bom, o nome da minha esposa é Ruby Wattsky Fontaine, o da minha mãe era Louise Trétou Fontaine, meu pai chamava-se Ferdinando Della Fontaine e eu estudei na Escola para Moços Franceses, e eu nasci em Paris. Só isso?
- Eu só perguntei isso, então é só isso.- respondeu asperamente e ficou surpreso por Jean terescrito um bilhete tão direto, sem falhas. Ainda não acreditava que aquele pusilânime era o chefe dos Conservadores. E ele sabia que havia algo que não tinha sido mencionado, e ele estava pronto para descobrir quer seja quem estivesse atrás disso tudo. Racionou isso ligeiramente em sua cabeça e, então o carro parou em frente à bela casa. Era amarela claro, com as janelas brancas, e tinha uma entrada coberta por um jardim com vários tipos de flores diferentes muito bem cuidadas e podadas.
Com o som da buzina do automóvel, saiu uma mulher linda, com um cabelo cacheado até a cintura numa meia-trança de cor loiro pálido, ela era tão branca que se podia ver sua alma. Seus olhos eram um azul profundo, sua silhueta deixava claro que era magra o suficiente e seus seios, eram grandes, como Pedro gostava. Ela mais parecia uma boneca de porcelana. Maragno interessou-se por ela naquele mesmo instante. Mesmo assim, manteve a sua postura e colocou uma mão sobre o ombro de Jean. Logicamente, que com aquele vestido, e jóias esplendidamente caros, ela era a esposa de Jean Louis. Os dois atravessaram o portão da casa sorrindo um para o outro.
Qualquer um que passasse por perto da casa imaginaria que aquela cena era completamente verdadeira; dois amigos se abraçando e sorrindo por nada, e a dama de um deles à sua espera na soleira da porta. Por mais que fosse mentira, era uma mentira real; algo inacreditável. Ao chegarem à porta de entrada, Jean apresentou Pedro à sua esposa:
- Ruby, você nem acredita quem eu encontrei na Itália! Pedro Maragno, meu amigo de infância! – disse com muita empolgação, pois afinal, tinha chegado em casa ileso e por que Pedro era um homem muito profissional e não iria fazer mal a ele enquanto não o pagasse.
- Prazer, Sr. Maragno. – disse Ruby, dando um sorriso caloroso.
- O prazer é todo meu, Ruby. – falou com tal reverência, pegando a mão e beijando-a. Logo que soltou a mão, deu um olhar sedutor à mulher, que também o olhava.
- Então? Vamos entrar ou não?! – Jean estava querendo poder estar em casa há muito tempo, então todos entraram e foram para a sala de estar. Chegando à sala, a empregada mostrou a Pedro o seu aposento e lhe preparou um banho com especiarias das Índias. Aproveitou o seu banho para relaxar e descansar da viagem, que tinha sido muito tensa – para Sr. Fontaine, pensou. Afinal, já passava um dia e meio que havia deixado a Itália. Vestiu-se e desceu para a sala de jantar, onde seria servido o jantar. E deliciou o bom gosto da família Fontaine. A casa era mobiliada em madeira, com quadros de pintores famosos - principalmente da época do Renascimento -, e no centro da sala havia um piano com uma longa cauda. Maragno quando pequeno tocava piano, e se lembrou novamente de sua infância, mas se deteve de mais um de seus milhares devaneiosOlhou para a cortina que era feita de seda pura, num tom de bege que Pedro desconhecia. Andou até a sala de jantar e se sentou em uma das várias cadeiras vazias da mesa.
De onde vocês se conhecem?- indagou a mulher, que estava curiosa sobre esse amigo do qual seu marido nunca havia mencionado. Então Pedro resolveu tomar conta da situação e disse:
- Nós estudamos juntos na Escola para Moços Franceses. Bem, eu sei que não sou francês, mas meus pais vieram para a França quando eu era pequeno e eu acabei indo para a mesma escola que o meu querido amigo Jean. - sorriu, de forma galanteadora.
- Pois é,eu o conheci na Escola para Moços. – apesar de ser um homem um tanto medroso, Jean mentia muito bem, o que impressionou a Pedro.
- E como vocês se conheceram? Bem, até hoje imaginava que Jean estava solteiro...
- Ah, eu sou russa. Nos conhecemos quando ele foi à Rússia tratar de negócios, e eu me encantei por ele. Jean foi até papai e pediu minha mão em casamento, que foi atendido com muito bom gosto, apesar de papai ter chorado muito no casamento, estava feliz por eu também estar feliz, pois tinha encontrado o homem da minha vida. E não faz muito tempo que estamos casados. Esse ano farão cinco anos de casamento.
- Interessante... – e sorriu de maneira presunçosa.
Terminado o jantar, Pedro acompanhou Jean ao seu escritório, para tratar da sua próxima vítima.
- Então, quem é a vítima?
- Ele é um homem pobre, que vive no subúrbio francês. Não é muito longe daqui. Esta é a foto dele. Seu nome é Carlos Austier. E sua mulher, Abigail Austier, sem filhos, até onde sei. Quando poderá executar a tarefa? – e colocou novamente as folhas dentro do envelope em que estavam.
- Não sei. Precisarei de tempo. Tenho que pesquisar a fundo a vida dele. Só isso não basta. Amanhã darei um jeito de descobrir. – e pegou o papel pensativo, de como iria fazer esse serviço – Qualquer coisa, eu avisarei.
Virou-se e fechou a porta e caminhou em direção ao seu quarto, a fim de guardar o envelope com as informações do Sr. Austier. Deixou o envelope em cima da cama e saiu da casa, para ir a um novo bordel.
sábado, 10 de abril de 2010
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Quando o grande parece ser pequeno
Existe alguma coerência no fato de um carioca se mudar para Imperatriz? Certamente você responderia com firmeza: NÃO! Influenciados por vários motivos chegaríamos a essa conclusão rapidamente. Mas eu te digo, a resposta depende do ponto em que se vê a pergunta.Onde encontraríamos pessoas de tantas localidades do Brasil agrupadas em um só lugar? Imperatriz do Maranhão seria a minha alternativa correta!Fazendas, localização de rios, agricultura, já fazem parte do repertório de assuntos. Ah, não poderia me esquecer do gosto musical. Forró e Sertanejo agora dividem espaço com o Rock e a MPB. E de maneira alguma classificaria isso por retrocesso ou atraso e sim diversidade. A vida está na diversidade das coisas, das pessoas e tudo mais que possa haver. Estar aberto para experimentar essas novas situações é a questão em foco.O carioca é legal, simpático, alegre, mas não conheço muitos que tenham se mudado para um lugar tão distante e diferente. (Diferente pelo menos ao meu ver, não que isto seja um problema, é apenas um comentário! ) Cariocas consideram o Rio de Janeiro o melhor lugar do mundo. Lá é o lugar, praias, shoppings, pão e circo pra toda gente! Mas me pergunte quantos já saíram de sua redoma urbana e se aventuraram a habitar em terras longínquas. No alto da minha pequena jornada de 20 anos não vejo esse empenho.Como seres adaptáveis, nos acostumamos a tudo. A violência faz parte, o engarrafamento para ir ao trabalho é uma oportunidade de ouvir todas as músicas que você baixou e ainda não ouviu, estar em pé dentro de um ônibus lotado é um complemento da malhação, um alongamento que dura quase 1h e meia. E aí assim caminhamos ...Caminhamos tanto que não vemos diante de nossos olhos outra realidade que não possa ser aquela em que estamos inseridos. E nascemos, e vivemos, e morremos sem perceber que existe uma infinidade de outros mundos que poderíamos descobrir.Nunca considere o grande, grande o suficiente pra te fazer parar. Prossiga e desbrave! Por: Rebeca Avelar Jornalismo Federal - Informação com Formação. Acesse:http://www.jornalismofederal.blogspot.com/

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